domingo, 18 de dezembro de 2011

Coração tóxico - 1º capítulo

Veias de veneno

“... foram encontrados ontem cinco corpos, congelados abaixo da superfície do gelo no lago Tahoe. Segundo as autoridades, a causa da morte de todas as vitimas é envenenamento por arsênico. Ainda não foram divulgadas as identidades das vitimas, mas informantes da polícia encarregados do caso supõem que elas sejam novas vitimas do envenenador, o assassi...”
-Que idiotice – Ângela disse, e desligou a TV. Ela andou até o laboratório, adentrou-o, sempre empurrando o carrinho da faxina, e começou a limpar. Enquanto limpava, ela ouvia tudo que era dito pelos médicos, observa tudo a sua volta e anotava mentalmente e cautelosamente o que considerava importante. Ela era uma mulher negra, de estrutura média e sorrisos que vinham fácil, tinha cabelos crespos e negros, era magra e bem humorada, e cantarolava enquanto limpava o Instituto Médico Legal de Londrina. Todos a adoravam.
-Bom-dia, doutores.
-Bom-dia, Ângela. Será que você poderia deixar para limpar o necrotério depois? Eu sei que você tem um cronograma a seguir, mas acabaram de chegar os corpos das vitimas do envenenador, e lá está um inferno.
-Tudo bem doutor. Eu vou limpar o escritório primeiro, depois volto a seguir o cronograma - ela saiu calma e sorridente, cantarolando suavemente.
“Os novos corpos do envenenador acabaram de chegar, né? E eu aposto como vocês não encontraram nada neles. Veias cheias de arsênico, corpos nus, o de sempre. Digitais queimadas, só para dificultar a identificação das vítimas. E nenhuma pista, nem ao menos um vestígio que prove o assassinato, e exclua o suicídio. Eles nem ao menos podem provar que o “envenenador” existe. Bando de idiotas que conseguiram um diploma. Acham que são melhores do que eu, só por que são médicos, os ‘doutores”. Mas eles vão desejar não serem médicos quando eu acabar.
Dito e feito, ou melhor, pensamento concretizado. Ângela terminou de limpar tudo, sempre compilando informações, foi para casa no final de semana, e esperou pelas manchetes, que logo chegaram.
“Hoje foram encontrados mais três corpos congelados, desta vez no frigorífico abandoado da Rua Turquia. Os corpos foram envenenados com arsênico, e são outras possíveis vitimas do assassino serial que assombra nossa cidade, o envenenador. O desespero dos familiares das pessoas que desapareceram recentemente só aumenta cada vez que mais as identidades das vitimas do envenenador são confirmadas como sendo de pessoas que desapareceram nos últimos dois anos. Estima-se que os corpos estiveram congelados por muito tempo, mas o porque de o assassino só revelá-los agora, as autoridades desconhecem.”
- Novos corpos? Ah, nossa que surpresa. E eles só vão aumentar.
E, na realidade, eles aumentaram. Em grupos cada vez menores, os corpos de todos (bem, quase todos) os rostos que estampavam a lista de desaparecidos foram aparecendo, sempre congelados, nus, envenenados e com digitais queimadas, cada vez mais vitimas dele, do mais célebre assassino serial da história de londrina. Agora, Londrina, a cidade com maior índice de mortos e desaparecidos do país, estava frente a frente com algo inusitado, o envenenador.
O mais estranho desses assassinatos, era que eles não estavam sendo praticados agora, era apenas a revelação de algo que vinha durando anos, sempre em segredo, algo macabro, que aterrorizava a população entediante de Londrina. A contagem de corpos já estava em 34, e continuavam a subir, depois da onda de desaparecimentos que acontecera nos últimos três anos anteriores, a cidade era palco de uma maléfica revelação, os desaparecidos não estavam desaparecidos todo esse tempo. Agora eles apareciam aos montes, empilhados e congelados, desprovidos de dignidade ou humanidade, mas com as veias sempre bem providas de arsênico.
“Só mais um dia cheio de corpos em Londrina. Mais um dia comum na vida entediante da população londrinense. Bom, isso vai mudar se eu puder interferir, nesse caso, é só mover uns corpinhos ali, outros aqui, e o tédio desaparece, sendo substituído pelo horror. Uma troca perfeita.” – Pensou Ângela consigo mesma.
Ela se levantou e desceu as escadas para o porão. Vestiu-se adequadamente (com uma roupa que era uma mistura bizarra de uniformes de açougueiro e de dentista), e pegou um corpo do freezer. Apenas um, desta vez. Era uma mulher de 30 anos, baixinha. Era tão leve que ela não teve dificuldade alguma em colocá-la no carrinho de gelo e levá-la escada acima, e para o caminhão de gelo parado na porta de casa. Essa era a parte mais arriscada e mais complicada, o transporte dos corpos do porão, um por um, e levá-los para o caminhão. Depois ela dirigia o caminhão pela cidade, dando voltas aleatórias, para depois estacionar nos fundos, na região do lugar onde ela fosse deixar os corpos, geralmente lugares abandonados e fora de vista, onde ninguém iria reparar num caminhão velho.
Ela colocaria os corpos no local arrumando-os como em uma obra de arte, e depois dava um jeito de encontrarem os corpos, sempre de um jeito chocante, já que ela colocava-os em momentos oportunos, como no inicio da reforma do frigorífico, ou nesse caso, na véspera da nova inauguração da pista de hóquei.
  O gelo iria ser trocado no dia seguinte, pois a pista estava fragmentada. Qual seria a surpresa dos trabalhadores, quando encontrassem um corpo sobre o gelo! Ela mal podia esperar. A repórter Luiza Abreu virá para filmar o local, e ela horrorizada e muda ao ver o corpo nu de sua irmã gêmea, Ana. Mais uma vez os ricos habitantes de londrina vão perceber que não estão seguros atrás de seus muros e cercas elétricas, não mais do que nós, os ditos pobres. Eles vão odiar isso, tanto quanto Ângela irá adorar. Claro que embora pareça simples, havia muitas coisas que levaram a essa noite.
Levava semanas de preparação, desde a identificação das vitimas e a pesquisa sobre os lugares à queima das digitais e a remoções dos vestígios, além dos álibis que ela tinha que forjar.
Ela tirava as impressões digitais dos copos antes de queimar com ácido os dedos, e limpa-los. Então ela lavava os corpos, não deixando partículas suspeitas para trás. Vitimas congeladas, limpas e bem mortas, ela podia começar a pesquisa sobre suas identidades.
Como ela tinha acesso total ao laboratório do Instituto isso era fácil. Depois ela arranjava um lugar com bastante gelo pra plantar os corpos, sempre em circunstancias favoráveis ao plano, que era a descoberta no dia seguinte, sempre tendo como alvo os ricos, importantes e famosos. Mesmo quando eram mendigos, ela dava um jeito dos holofotes do horror ficarem voltados na direção do mundo privilegiado deles. E o melhor de tudo era que ela conseguia tudo isso sem precisar matar ninguém, ficando fora de suspeitas.
-11:00 horas. È a hora.
Ângela vai até o estádio de hóquei, e estaciona no fundo dele. Arromba o cadeado e leva o cadáver até a pista, soterrando-o com gelo. Depois sai sorrateiramente, deixa o caminhão na garagem, vai para uma festa e fica a vista de todos, construindo um álibi. Chega em casa pela manhã tendo certeza que a vizinha à viu chegar, cumprimenta-a e dorme o resto da manhã.
À tarde no domingo, liga a TV para ver o resultado da sua pequena expedição da noite passada.
“Os trabalhadores encontraram o corpo quando iam para a pista de gelo hoje de manhã. Senhor Luiz, o senhor foi o primeiro a ver o corpo, Certo?
-Fui eu sim, senhora.
- E foi o senhor também que ligou para a policia?
Sim, eu vim pra por o gelo, e era eu quem ia tirar os pedações quebrados de gelo. Aí quando eu estava tirando os pedaços, eu vi aquele trem diferente, sabe? Era claro, mas num era da cor do gelo, eu cavei mais um pouquinho e tinha uma mulher ali. Eu pensei que ela fosse um manequim, por que estava perfeita demais. Mas acabou que era gente, daí eu me lembrei do envenenador, e liguei para a policia.
-Obrigada pelo seu depoimento, senhor. Como o senhor Luiz Vaz afirmou, a vitima é uma mulher de pele clara, loira. Ela foi colocada na pisa durante o sábado, pois foi o único momento em que a pista ficou desocupada. Os investigadores afirmam que ela já estava morta a cerca de 8 a 9 meses, antes de ser trazida para a pista. A vitima já foi identificada como Ana Abreu Dourado. Aqui é Luiza Abreu ao vivo do estádio municipal de hóquei.”
Ângela desligou a TV, meio carrancuda. Não tinha sido bem como ela esperava. Luiza recuperara o profissionalismo bem a tempo de gravar a matéria. Talvez ela não gostasse muito da irmã, de todo jeito. Bom, pelo menos era alguma coisa. Ela iria superar. Havia mais corpos para expor e muito tempo para fazê-lo. Tudo estava bem, então ela foi olhar a quantidade restante de corpos congelados no freezer.
- Pelo menos, me sobraram algumas surpresinhas - Ela sorriu para o corpo do ex-prefeito da cidade – Você ainda vai fazer muito bem a essa cidade!
Pelo menos era o que ela achava. Mas as coisas começaram a rumar para uma direção inesperada a partir daquele momento. A campainha toca.
- Já vai – Ângela sobe as escadas, tranca o porão e coloca um tapete sobre a entrada antes de abrir a porta, toda sorridente.
-Oi, o que você veio fazer aqui? 

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